À porta fechada: ex-internos relatam violações de direitos humanos em comunidades terapêuticas
Denúncias incluem isolamento, falta de assistência médica e trabalho forçado em diferentes unidades
Por Duda Reis
No Hospital Municipal de Ibiúna, havia pequenas poltronas alinhadas diante de três leitos. Em uma delas, Cecília, uma senhora de 50 e poucos anos, deitou no colo de Bruna e pediu uma música. Sem hesitar, a jovem cantarolou os primeiros versos de uma música do cantor estadunidense Johnny Rivers.
“Do you wanna dance and hold my hand?
Tell me that I’m your man
Baby, do you wanna dance?”
A melodia era familiar às internas da Comunidade Terapêutica Estrela de Luz, situada em uma área isolada da zona rural de Ibiúna, no interior de São Paulo. Naquela madrugada de de 2017, Cecília, que passou grande parte da vida institucionalizada em um vaivém de casas de acolhimento, acordou na chamada “senzala rosa” — ala onde ficavam as pacientes consideradas esquizofrênicas pela instituição — com sangue na garganta. Foi socorrida por Bruna Mendes, à época com 22 anos — são delas as memórias sobre o ocorrido com Cecília. Bruna não era enfermeira, apenas outra interna que, ao cumprir as regras rígidas do local, subiu na hierarquia até conquistar cargos de monitoramento.
As comunidades terapêuticas (CTs) são instituições privadas que podem receber recursos do poder público e acolhem pessoas com uso problemático de álcool e outras drogas. Nas CTs, a presença de profissionais qualificados costuma ser reduzida, e é comum que internos virem monitores — mesmo sem formação ou remuneração — como parte do tratamento.
Internada desde 2016, Bruna ajudava as mulheres da casa rosa com um cuidado que descreve como materno. Dava banhos, acompanhava a alimentação e vigiava durante a noite: “qualquer coisinha eu acordava, igual mãe. Quando eu acordei, Cecília estava vomitando sangue”.
A jovem enfrentou resistência dos funcionários da Estrela de Luz para levá-la ao hospital: “Quando uma enfermeira [da CT] chegou e olhou o estado da Cecília, tentou fugir. Eu não permiti que ela fugisse. Peguei outra interna e falei: ‘me ajuda a carregá-la até o carro’”. As duas colocaram Cecília no veículo, e a própria enfermeira acabou seguindo com elas. Em um carro velho — comprado por Bruna com economias próprias, com o aval da família, para transportar internas diante da ausência de assistência da instituição — partiram para o hospital.
O trajeto de quase 24 quilômetros levou cerca de 30 minutos. Ao chegarem na emergência, a enfermeira puxou a outra interna e deixou o local às pressas, retornando à Estrela de Luz. Bruna ficou. Ao perceber que os médicos não poderiam mais ajudar e que Cecília já estava em um estado terminal, cantou Johnny Rivers e segurou a mão daquela senhora por 20 minutos — o intervalo entre a entrada na emergência e o último suspiro. “Eu lembro de cada pedacinho daquele rosto. Ela era muito bonita, apesar de estar sem a dentadurinha, com a boquinha para dentro”, recorda Bruna, hoje aos 32 anos.
Ao ligar para a CT para comunicar a morte de Cecília, Bruna Mendes foi orientada a sair do hospital e fumar um cigarro. Antes disso, conduziu o corpo numa maca até o necrotério. Do lado de fora, foi surpreendida pelo carro da Estrela de Luz e obrigada a retornar à instituição.

em maio de 2026
A trajetória de Bruna até aquele hospital em Ibiúna começou no Paraná. Criada em Colombo, passou a usar substâncias ainda na adolescência, após a morte de uma companheira e em meio à rejeição da família católica à sua sexualidade. Já adulta, largou a faculdade de direito para viver de música e passou a trabalhar em uma agência de modelos, onde iniciou o uso de cocaína e heroína. Ao perceber que havia perdido o controle, pediu ajuda e foi internada em uma clínica particular de Curitiba, onde permaneceu apenas cinco dias devido ao custo do tratamento.
Após um período isolada em casa para continuar em abstinência, sofreu uma tentativa de estupro ao voltar de uma festa, o que agravou sua relação com o álcool. Buscando alternativas mais acessíveis, sua mãe descobriu a Comunidade Terapêutica Estrela de Luz por recomendação de conhecidos. Lá, a mensalidade era R$1 mil.
Mesmo sem conhecer o local, a família providenciou a remoção de Bruna. Em uma noite, três homens foram até sua casa e a sedaram com um coquetel de medicamentos conhecido como “danoninho”. Ela acordou já em Ibiúna, em uma cadeira de rodas: “fui colocada em uma cama. Não sei quem trocou a minha roupa, quem mexeu nas minhas coisas, quem fez a minha revista íntima”. Ao despertar, ouviu que a família não a queria mais e que permaneceria na instituição até nova decisão.
Bruna ficou três meses sem contato com os parentes e só voltou a ter notícias após aceitar assinar o contrato de internação. O período mínimo era de seis meses, mas ela permaneceu por 1 ano e 8 meses, parte do tempo já como monitora: “eu não sabia que eu já podia ir embora, porque eles não me passaram isso, mas para a minha família falaram que eu estava trabalhando lá. Nunca recebi, e a minha família continuou pagando”.
Durante o período em que atuou como monitora, Bruna também relata ter participado de uma agressão contra outra interna — episódio que hoje relembra com arrependimento.
A Comunidade Terapêutica Estrela de Luz mantém CNPJ ativo e tem como único sócio-administrador Eduardo Abbondanza Morad, que não foi localizado pela reportagem. Um e-mail vinculado à instituição foi contatado, mas não houve resposta até a publicação desta edição.
Maioria das CTs brasileiras usam laborterapia e espiritualidade como método terapêutico
O isolamento geográfico e o distanciamento familiar são as primeiras ferramentas de controle de algumas CTs. Em 2011, Kleidson de Oliveira conheceu o mesmo sistema em Belo Horizonte, quando ainda vivia em situação de rua. Hoje com 48 anos e ativista do Movimento População de Rua, ele lembra como foi “recolhido” e levado para uma comunidade terapêutica identificada como “Fazenda Leão de Judá”, entre Coronel Fabriciano e Ipatinga, municípios de Minas Gerais.
Ao chegar no local, Kleidson foi obrigado a capinar, plantar, cuidar de animais, entre outros serviços associados à manutenção do espaço. O método é conhecido como laborterapia, uma série de atividades laborais impostas como parte do tratamento, porém sem respaldo clínico ou acompanhamento técnico qualificado.
Na pesquisa censitária mais recente a nível nacional, realizada em 2017, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) identificou a existência de quase 2 mil CTs no Brasil, com cerca de 84 mil vagas. Do total, 82% possuem vínculos com igrejas ou organizações religiosas, sendo 40% de orientação pentecostal e 27% católica. No levantamento, a prática de laborterapia foi identificada em mais de 90% das instituições.
Segundo o Ipea, o trabalho espiritual baseia-se em doutrinas religiosas, especialmente cristãs, mas também pode ocorrer sem vínculo religioso.
Ao entrar naquela Kombi, Kleidson relata ter sentido a esperança em um “mundo novo”: “aquele abraço que eles me deram… Foi como se eu fosse viver em um mundo de pessoas que iam me respeitar, entender o meu problema, me aceitar do jeito que eu era. Nada. Eu fui para um isolamento. Parecia um campo de concentração”.
Além do trabalho compulsório, ele também viveu o chamado “trabalho espiritual” por meio de discursos religiosos. “O que eles mais faziam era machucar a gente por dentro, com palavras”, declara. A retórica operava pela culpa: sua trajetória era apresentada como resultado de escolhas erradas, interpretadas como desvios dos ensinamentos da igreja. A internação surgia como um “castigo” inevitável — e a única maneira de se redimir era aceitar a religião.
‘Era um depósito de gente’, diz ex-interna de uma comunidade terapêutica em São Paulo
A experiência religiosa também aparece na história de Jackeline Lopes, que, ao contrário de Bruna Mendes, ingressou em uma comunidade terapêutica por vontade própria. Ela foi internada no Centro de Assistência Social e Apoio Especializado Esdras, que atendia exclusivamente mulheres, em Cajamar — município a cerca de 30 quilômetros da capital paulista —, em novembro de 2021.
Aos 31 anos, Jackeline era cabeleireira autônoma em São Mateus, distrito da zona leste de São Paulo, quando percebeu um agravamento no uso de álcool após passar por uma tentativa de sequestro em um carro de aplicativo. Com crises de pânico constantes, foi orientada por sua psicóloga a buscar uma “casa para pessoas com depressão”. Na internet, encontrou o Esdras: uma chácara com piscina, quartos compartilhados por até quatro pessoas e acompanhamento psicológico e psiquiátrico.
Jackeline visitou o local acompanhada da mãe. Foi recebida pelo “coordenador” Kauê Dias Cercelo e, ao mencionar ser candomblecista, ouviu que o espaço era ecumênico. Convencidas, assinaram o contrato para seis meses de internação e se despediram.
“A partir do momento que a minha mãe foi embora, eu já comecei a passar por situações de vexame”.
No primeiro dia de internação, Lopes teve as roupas retiradas em uma revista que buscava objetos ou substâncias escondidas. Em seguida, após um comportamento considerado inadequado pela equipe durante o jantar, foi contida, medicada e levada a um quarto escuro e superlotado na casa 3 — chamada pejorativamente de “sapataria”, local para mulheres homossexuais, trans ou com aparência tida como “masculina”.
A instituição organizava os espaços por numeração e os chamava de “casas”. A casa 1 era uma vitrine: um quarto modelo, reservado a internos com maior poder aquisitivo e apresentado para familiares que cogitavam internar algum parente. Já a casa 2, também chamada de “quarto do meio”, era destinada às internas classificadas como “psiquiátricas” e associada a punições, incluindo episódios de agressões físicas e tortura. Ao acordar medicada na casa 3 e dizer que queria deixar o Esdras, Jackeline foi encaminhada ao “quarto do meio”.
“Desde o primeiro dia, não teve um dia que eu não tenha apanhado e que eu não tenha sido dopada contra a minha vontade”.
A rotina era estruturada por períodos ociosos no pátio e cultos evangélicos ministrados por pastores da Congregação Cristã, que, segundo Lopes, incluíam agradecimentos a políticos “que estavam fazendo coisas boas para os evangélicos”, como o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.
Tanto Bruna Mendes quanto Jackeline Lopes destacam o perfil diverso das pessoas internadas em comunidades terapêuticas. No Esdras, conviviam usuárias de drogas, idosas abandonadas, pessoas com deficiência intelectual e mulheres internadas por conflitos familiares ou decisões judiciais. “Era um depósito de gente”, declara Jackeline. As refeições eram de baixa qualidade, o banho restrito a poucos minutos sob supervisão, e itens básicos de higiene, assim como atendimentos médicos emergenciais, dependiam de pagamentos extras feitos pela família, além da mensalidade de R$1.500.
Após uma consulta inicial com a psiquiatra do local, Jackeline passou a receber medicação três vezes ao dia. Reclamar dos efeitos — como a sensação de estar dopada — podia prolongar a internação; recusar o tratamento levava à contenção física: “ou você tomava, ou o Kauê, ou outra monitora vinham, te davam uma ‘gravata’, enfiavam o remédio na sua goela e você tinha que tomar”.
As ligações com a família só eram permitidas depois de 30 dias, sob monitoramento. As visitas presenciais, liberadas depois de 45 dias, ocorriam sob vigilância: “era uma mesa daquelas branquinhas de plástico, com uma cadeira para você, uma para sua mãe e outra para o monitor. O monitor fica lá porque, qualquer coisa que você falar, você já sabe”.
CT Esdras foi classificada como ‘organização criminosa’ em processo do Ministério Público de São Paulo
Para Jackeline Lopes, a proibição de contato com a família nos primeiros 30 dias foi o que a salvou de um desfecho semelhante ao de Milena Eduarda de Paula Leocádia que, no dia 30 de dezembro de 2021, conseguiu relatar agressões durante uma ligação.
Internada por dependência de álcool e cocaína, ela estava no Esdras havia cinco meses. Após a ligação, foi levada à força para o “quarto do meio”, onde foi amarrada, amordaçada e drogada. Outras internas foram obrigadas a assistir à cena, aplaudir e rir. Um tempo depois, já trancadas em seus quartos, ouviram gritos: “para, está doendo, chama a minha mãe. Eu quero ver o meu filho”. O pedido de socorro durou cerca de cinco minutos, até cessar.

Pela fresta da janela, as internas viram o corpo de Milena sendo carregado. À noite, ao cobrarem explicações de uma das donas do Esdras, Talita Assunção de Paula Santana, foram confrontadas não apenas pela equipe, mas também por policiais chamados ao local pelo sócio, Marcos Gaudêncio Moglia, para intimidá-las.
“Eu vou ser testemunha pelo resto dos meus dias. Posso superar, pode passar o tempo que for, mas a sensação de você ouvir uma pessoa pedindo socorro e você estar presa em um quarto, sem poder fazer nada… É muito horroroso. Naquele momento, eu me liguei que eu podia ser a próxima”, desabafa Lopes.
Jackeline conseguiu deixar o Esdras após três meses de internação, em 19 de fevereiro de 2022, depois de sua mãe pagar cerca de R$3 mil de multa — um mecanismo usado por algumas CTs para dificultar a saída e que contraria normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Por não serem consideradas serviços de saúde, mas serviços de interesse à saúde, as CTs devem garantir a permanência voluntária. A Resolução nº 29/2011 determina, em seu art. 19, incisos III e IV, que “devem garantir a permanência voluntária; a possibilidade de interromper o tratamento a qualquer momento, resguardadas as exceções de risco imediato de vida para si e/ou para terceiros ou de intoxicação por substâncias psicoativas, avaliadas e documentadas por profissional médico”.
No ano seguinte, em fevereiro de 2023, já com a investigação sobre a morte de Milena em andamento, o Ministério Público de São Paulo e a Polícia Civil realizaram uma operação no Esdras para apurar denúncias recebidas pelo Disque 100. Setenta e cinco mulheres foram encontradas em condições degradantes, com relatos de agressões, privação de liberdade e negligência.
A unidade foi fechada e os responsáveis presos em flagrante, entre eles Talita Santana e Marcos Moglia — que utilizava o nome da esposa, Márcia Maria de Aguiar, na sociedade. Kauê Dias Cercelo, o “coordenador” descrito por Jackeline como um “interno permanente”, que contava já ter passado por 28 internações antes de assumir funções de vigilância no Esdras, já havia deixado o local. Foi considerado foragido, sendo preso apenas em 8 de abril de 2024.

alita e Marcos foram condenados em primeira instância pela Justiça de São Paulo, na 1ª Vara Judicial de Cajamar, a 31 anos de prisão; Kauê, a 18 anos, por crimes como cárcere privado e maus tratos. A condenação, porém, foi posteriormente anulada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que, por 2 votos a 1, considerou insuficientes as provas para sustentar a acusação e determinou a absolvição dos três. Os donos do Esdras foram soltos em março de 2025. Já Kauê, segundo as informações disponíveis, permaneceu preso por outros crimes até maio de 2025.
O argumento de que os réus foram absolvidos pelo TJSP no processo movido pelo MPSP passou a ser utilizado pelas defesas no inquérito sobre a morte de Milena — que corre em paralelo — sob a alegação de que os fatos já teriam sido analisados pela Justiça.
Morte de Milena Leocádia está sendo investigada em inquérito policial há quatro anos
Em reportagem de 2023, o Intercept Brasil também ouviu Marli Alves, mãe de Milena. Ao sair carregada do Esdras, a jovem foi levada ao Hospital Regional de Cajamar, na região metropolitana de São Paulo, sob a informação de tentativa de suicídio. O boletim de ocorrência registrado por Marli naquela noite permaneceu parado por um ano no 1º Distrito Policial de Cajamar, até ser convertido em inquérito pelo delegado Odair Leitão Rocha, em janeiro de 2023.
Segundo o laudo do Instituto Médico Legal, Milena apresentava hematomas em diferentes partes do corpo. No exame toxicológico, foram identificadas oito substâncias com efeito antipsicótico, antidepressivo e sedativo, incluindo haloperidol, diazepam e clonazepam. O caso, inicialmente registrado como “Morte Suspeita” e “Morte Súbita sem Causa Determinante Aparente”, segue em investigação, com sucessivas prorrogações de prazo.
Em decisão de março deste ano, o juiz Marcelo Henrique Mariano foi contrário à prisão preventiva dos réus, determinando apenas medidas cautelares, como a proibição de contato com as testemunhas. O juiz também citou a absolvição de Talita, Marcos e Kauê pelo TJSP no processo movido pelo Ministério Público.

Mesmo após o fechamento, o CNPJ do Esdras permanece ativo, e outras instituições ligadas ao grupo seguem em funcionamento. Márcia Aguiar, esposa de Marcos Moglia, aparece como sócia-administradora do Centro de Assistência Social e Apoio Especializado Esther (SP), da Comunidade Terapêutica Naamã (Cajamar, SP) e do Centro de Assistência Social e Apoio Especializado Eloah (Embu das Artes, SP), este último em conjunto com Talita Santana.
A reportagem tentou contato com Márcia Maria de Aguiar em duas ocasiões, mas não obteve retorno até a publicação desta edição. O mesmo ocorreu com Tiago Miranda Cunha, advogado de Talita Santana, e com um advogado associado a Kauê Cercelo, que também não responderam às mensagens enviadas.
Já o escritório de Mário de Oliveira Filho, que defendeu Marcos Moglia no inquérito sobre a morte de Milena até pelo menos 25 de março de 2026, declarou que não representa mais o caso. Questionados sobre o motivo do desligamento, não houve resposta.
A engrenagem da violência nas comunidades terapêuticas
As histórias de Bruna, Kleidson e Jackeline reverberam no relato de Eduardo Real, de 38 anos, que passou por 14 internações em diferentes comunidades terapêuticas entre 2011 e 2020.
Morador da periferia de Osasco, Eduardo buscou ajuda por conta própria ainda jovem, diante do agravamento do uso de drogas em um contexto de violência doméstica e homofobia. Com o único Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) da cidade lotado, a família procurou um pastor que intermediava vagas em CTs. Dias depois, Eduardo foi internado pela primeira vez.
Nesta instituição, onde ficou por sete meses, ele lembra episódios específicos: um homem linchado durante um culto, sob o olhar dos demais; uma travesti que teve o cabelo cortado à força e as roupas queimadas em um ritual religioso de “expulsão de demônios”; e uma mulher que, com a depressão agravada pelo local, tirou a própria vida pouco depois de ser liberada.
“O culto inteiro era nos desmoralizando. Falando que a gente acabou com a [nossa] família, que todo mundo estava decepcionado com a gente, que se a gente não se convertesse, ia voltar a usar droga, morrer, decepcionar e matar a família”.
Em relatório, o Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) identificou irregularidades em todas as 205 CTs inspecionadas por diferentes órgãos entre 2015 e 2024, incluindo privação de liberdade, violência e trabalho forçado.
O documento também aponta a presença de ao menos quatro CTs na “Lista Suja” do trabalho análogo à escravidão: uma unidade ligada à Igreja Soberania Divina (Ceilândia, DF), identificada pelo nome do pastor responsável, Alírio Caetano dos Santos Junior; a Casa de Amparo Jesus Com a Gente o Tempo Todo (CAJET), em Feira de Santana (BA), incluída sob o nome do pastor Valney Sacramento da Silva Júnior; uma CT vinculada à Igreja Alcance da Vitória (Cosmos, RJ), sem identificação institucional clara nos registros públicos; e a Comunidade Terapêutica Tenda do Encontro (Juiz de Fora, MG).
Ao sair da primeira CT, Eduardo voltou a usar drogas em um estado ainda mais vulnerável, o que resultou em uma série de internações em diferentes instituições: “eu digo que o crack salvou a minha vida. O crack amenizou a minha dor. Doía tanto ter passado aqueles sete meses lá. Tudo que eu vivi, todas as surras que eu levei, todas as pessoas que eu vi apanhar… Tinha que ser uma droga muito potente para amenizar a dor”.
Nos anos seguintes, alternou períodos em situação de rua com novas internações, quase sempre incentivadas pela família. Para Kleidson, que conseguiu fugir após 16 dias internado, o efeito foi semelhante: “Quando eu saí, usei três vezes mais. Saí em uma fissura danada daqueles 16 dias e afundei o pé na jaca”.
Foi em 2016, em uma das únicas CTs onde podia receber livros, que a trajetória de Eduardo Real começou a mudar. Nos dias de visita, pedia à irmã que levasse textos de psicologia, filosofia e psiquiatria — prática que considera seu primeiro movimento antimanicomial.
A virada veio ao ler uma reportagem sobre o coletivo antimanicomial e antiproibicionista Desentorpecendo a Razão. Quando saiu da instituição, Eduardo se aproximou do grupo: “eu comecei a dialogar com a minha família de outra forma sobre o meu uso, as narrativas começaram a mudar. Eu comecei a colar com essa galera, e o crack não era tão importante mais. Foi uma flor desabrochando no meu peito”.
Tanto para Eduardo quanto para Kleidson, que frequentou um Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam) de Belo Horizonte, a melhora veio a partir da redução de danos e do cuidado em liberdade.
O primeiro tratamento de Eduardo fora das comunidades terapêuticas ocorreu em 2018, no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da USP, onde ficou internado por 28 dias. Lá, ele recebia atendimento multiprofissional, tinha liberdade para sair quando quisesse e conseguiu passar dois anos sem o uso de substâncias.
Em 2020, após uma recaída e diante de uma redução da oferta de leitos no IPq, voltou para uma comunidade terapêutica pela última vez — desta vez, por apenas um mês.
Hoje, Eduardo Real é estudante de saúde pública na USP e um dos fundadores do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas, ao lado de Jackeline, que cursa gestão em saúde na Escola Municipal de Saúde Pública de São Paulo. Bruna Mendes estuda psicologia em Curitiba, e Kleidson atua em movimentos da luta antimanicomial e da população em situação de rua.
As saídas das comunidades terapêuticas raramente são concedidas pelas instituições. Em geral, acontecem por fugas ou pelo encerramento de contratos. Bruna fugiu no mesmo carro em que socorreu Cecília; Jackeline deixou o Esdras após a morte de Milena e passou a buscar responsabilização pelo caso; Eduardo e Kleidson construíram trajetórias na militância em saúde mental.
Questionados sobre o objetivo das instituições onde estiveram, as respostas coincidem. Para Eduardo e Kleidson, o propósito é o lucro. Para Bruna, há também o poder exercido pelos responsáveis ao assumirem o papel de “salvadores”. Já para Jackeline, existe uma lógica de exclusão social que se aproxima da obra de Carolina Maria de Jesus, que descrevia um “quarto de despejo”: “é tirar aquele ser humano que deveria ser um problema ou não está dentro do que é considerado normal na sociedade, e deixar ele ali naquele depósito. E se ele padecer ali, é lucro”.
“Fui louca nas minhas escolhas ou, sem tantas escolhas, me fiz louca assim?”
Trecho de “Louco”, poema de Bruna Mendes.









Expansão das CTs continua apesar de alertas de especialistas
Fora das comunidades terapêuticas, ainda há dificuldades de acesso à rede pública. Bruna relata ainda não ter conseguido atendimento: “até hoje eu não sou acolhida pelo SUS. Estou na fila do neurologista e do psiquiatra há quatro anos”.
Para alguns especialistas, o fortalecimento das comunidades terapêuticas no Brasil pode ser explicado por um “vazio assistencial” histórico nas políticas de saúde mental. Outras análises destacam o avanço de agendas conservadoras que ampliam o espaço das instituições, sobretudo na bancada evangélica do Congresso Nacional.
Desde a fundação do Movimento Nacional de Vítimas, em 2023, Eduardo conta receber um relato de violação de direitos por dia e questiona o lugar que as comunidades terapêuticas ocupam no debate público. Atualmente, as instituições são reguladas pelo Departamento de Entidades de Apoio e Acolhimento Atuantes em Álcool e Drogas (DEPAD), criado no governo Luiz Inácio Lula da Silva dentro do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Inicialmente nomeado “Departamento de Apoio a Comunidades Terapêuticas”, o DEPAD é responsável pelos editais de credenciamento que financiam as CTs.
Apesar de estarem vinculadas ao MDS, órgãos fiscalizadores como o MNPCT apontam que os modelos adotados por muitas CTs são incompatíveis com os códigos de ética de assistentes sociais e psicólogos. A Anvisa, por sua vez, também não as reconhece como serviços de caráter médico, o que contribui para que ocupem um limbo institucional entre saúde, assistência e acolhimento, enfraquecendo os mecanismos de fiscalização.
A segunda reportagem da série Vidas Confinadas dialoga com especialistas para investigar o histórico de crescimento das CTs no Brasil, apresentando os dados mais recentes sobre o seu financiamento público. Leia aqui.
Em casos de vulnerabilidade, o governo federal disponibiliza canais gratuitos de assistência. Use o Disque 100 para denúncias de violações de direitos humanos. Para apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) possui atendimento sigiloso e disponível 24h pelo número 188.