No Hospital Municipal de Ibiúna, havia pequenas poltronas alinhadas diante de três leitos. Em uma delas, Cecília, uma senhora de 50 e poucos anos, deitou no colo de Bruna e pediu uma música. Sem hesitar, a jovem cantarolou os primeiros versos de uma música do cantor estadunidense Johnny Rivers.

Retrato de Cecília, por Bruna Mendes
em maio de 2026

O isolamento geográfico e o distanciamento familiar são as primeiras ferramentas de controle de algumas CTs. Em 2011, Kleidson de Oliveira conheceu o mesmo sistema em Belo Horizonte, quando ainda vivia em situação de rua. Hoje com 48 anos e ativista do Movimento População de Rua, ele lembra como foi “recolhido” e levado para uma comunidade terapêutica identificada como “Fazenda Leão de Judá”, entre Coronel Fabriciano e Ipatinga, municípios de Minas Gerais.

Além do trabalho compulsório, ele também viveu o chamado “trabalho espiritual” por meio de discursos religiosos. “O que eles mais faziam era machucar a gente por dentro, com palavras”, declara. A retórica operava pela culpa: sua trajetória era apresentada como resultado de escolhas erradas, interpretadas como desvios dos ensinamentos da igreja. A internação surgia como um “castigo” inevitável — e a única maneira de se redimir era aceitar a religião.

No primeiro dia de internação, Lopes teve as roupas retiradas em uma revista que buscava objetos ou substâncias escondidas. Em seguida, após um comportamento considerado inadequado pela equipe durante o jantar, foi contida, medicada e levada a um quarto escuro e superlotado na casa 3 — chamada pejorativamente de “sapataria”, local para mulheres homossexuais, trans ou com aparência tida como “masculina”.

A instituição organizava os espaços por numeração e os chamava de “casas”. A casa 1 era uma vitrine: um quarto modelo, reservado a internos com maior poder aquisitivo e apresentado para familiares que cogitavam internar algum parente. Já a casa 2, também chamada de “quarto do meio”, era destinada às internas classificadas como “psiquiátricas” e associada a punições, incluindo episódios de agressões físicas e tortura. Ao acordar medicada na casa 3 e dizer que queria deixar o Esdras, Jackeline foi encaminhada ao “quarto do meio”.

“Desde o primeiro dia, não teve um dia que eu não tenha apanhado e que eu não tenha sido dopada contra a minha vontade”.

CT Esdras foi classificada como ‘organização criminosa’ em processo do Ministério Público de São Paulo

Para Jackeline Lopes, a proibição de contato com a família nos primeiros 30 dias foi o que a salvou de um desfecho semelhante ao de Milena Eduarda de Paula Leocádia que, no dia 30 de dezembro de 2021, conseguiu relatar agressões durante uma ligação.

Internada por dependência de álcool e cocaína, ela estava no Esdras havia cinco meses. Após a ligação, foi levada à força para o “quarto do meio”, onde foi amarrada, amordaçada e drogada. Outras internas foram obrigadas a assistir à cena, aplaudir e rir. Um tempo depois, já trancadas em seus quartos, ouviram gritos: “para, está doendo, chama a minha mãe. Eu quero ver o meu filho”. O pedido de socorro durou cerca de cinco minutos, até cessar.

Trecho da petição protocolada no Tribunal de Justiça de São Paulo com o depoimento de Jackeline Lopes sobre a morte de Milena.

A unidade foi fechada e os responsáveis presos em flagrante, entre eles Talita Santana e Marcos Moglia — que utilizava o nome da esposa, Márcia Maria de Aguiar, na sociedade. Kauê Dias Cercelo, o “coordenador” descrito por Jackeline como um “interno permanente”, que contava já ter passado por 28 internações antes de assumir funções de vigilância no Esdras, já havia deixado o local. Foi considerado foragido, sendo preso apenas em 8 de abril de 2024.

Denúncia do MPSP cita a CT Esdras como uma “organização criminosa” que visava obter “vantagem econômica”.

alita e Marcos foram condenados em primeira instância pela Justiça de São Paulo, na 1ª Vara Judicial de Cajamar, a 31 anos de prisão; Kauê, a 18 anos, por crimes como cárcere privado e maus tratos. A condenação, porém, foi posteriormente anulada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que, por 2 votos a 1, considerou insuficientes as provas para sustentar a acusação e determinou a absolvição dos três. Os donos do Esdras foram soltos em março de 2025. Já Kauê, segundo as informações disponíveis, permaneceu preso por outros crimes até maio de 2025.

O argumento de que os réus foram absolvidos pelo TJSP no processo movido pelo MPSP passou a ser utilizado pelas defesas no inquérito sobre a morte de Milena — que corre em paralelo — sob a alegação de que os fatos já teriam sido analisados pela Justiça.

Morte de Milena Leocádia está sendo investigada em inquérito policial há quatro anos

Segundo o laudo do Instituto Médico Legal, Milena apresentava hematomas em diferentes partes do corpo. No exame toxicológico, foram identificadas oito substâncias com efeito antipsicótico, antidepressivo e sedativo, incluindo haloperidol, diazepam e clonazepam. O caso, inicialmente registrado como “Morte Suspeita” e “Morte Súbita sem Causa Determinante Aparente”, segue em investigação, com sucessivas prorrogações de prazo. 

Em decisão de março deste ano, o juiz Marcelo Henrique Mariano foi contrário à prisão preventiva dos réus, determinando apenas medidas cautelares, como a proibição de contato com as testemunhas. O juiz também citou a absolvição de Talita, Marcos e Kauê pelo TJSP no processo movido pelo Ministério Público.

Decisão mais recente do TJSP alega falta de contemporaneidade e absolvição dos réus em outro processo. Trecho do processo enviado por fonte para a reportagem.

Mesmo após o fechamento, o CNPJ do Esdras permanece ativo, e outras instituições ligadas ao grupo seguem em funcionamento. Márcia Aguiar, esposa de Marcos Moglia, aparece como sócia-administradora do Centro de Assistência Social e Apoio Especializado Esther (SP), da Comunidade Terapêutica Naamã (Cajamar, SP) e do Centro de Assistência Social e Apoio Especializado Eloah (Embu das Artes, SP), este último em conjunto com Talita Santana.

A reportagem tentou contato com Márcia Maria de Aguiar em duas ocasiões, mas não obteve retorno até a publicação desta edição. O mesmo ocorreu com Tiago Miranda Cunha, advogado de Talita Santana, e com um advogado associado a Kauê Cercelo, que também não responderam às mensagens enviadas.

Já o escritório de Mário de Oliveira Filho, que defendeu Marcos Moglia no inquérito sobre a morte de Milena até pelo menos 25 de março de 2026, declarou que não representa mais o caso. Questionados sobre o motivo do desligamento, não houve resposta. 

A engrenagem da violência nas comunidades terapêuticas

As histórias de Bruna, Kleidson e Jackeline reverberam no relato de Eduardo Real, de 38 anos, que passou por 14 internações em diferentes comunidades terapêuticas entre 2011 e 2020.

Morador da periferia de Osasco, Eduardo buscou ajuda por conta própria ainda jovem, diante do agravamento do uso de drogas em um contexto de violência doméstica e homofobia. Com o único Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) da cidade lotado, a família procurou um pastor que intermediava vagas em CTs. Dias depois, Eduardo foi internado pela primeira vez.

Nesta instituição, onde ficou por sete meses, ele lembra episódios específicos: um homem linchado durante um culto, sob o olhar dos demais; uma travesti que teve o cabelo cortado à força e as roupas queimadas em um ritual religioso de “expulsão de demônios”; e uma mulher que, com a depressão agravada pelo local, tirou a própria vida pouco depois de ser liberada.

“O culto inteiro era nos desmoralizando. Falando que a gente acabou com a [nossa] família, que todo mundo estava decepcionado com a gente, que se a gente não se convertesse, ia voltar a usar droga, morrer, decepcionar e matar a família”.

O documento também aponta a presença de ao menos quatro CTs na “Lista Suja” do trabalho análogo à escravidão: uma unidade ligada à Igreja Soberania Divina (Ceilândia, DF), identificada pelo nome do pastor responsável, Alírio Caetano dos Santos Junior; a Casa de Amparo Jesus Com a Gente o Tempo Todo (CAJET), em Feira de Santana (BA), incluída sob o nome do pastor Valney Sacramento da Silva Júnior; uma CT vinculada à Igreja Alcance da Vitória (Cosmos, RJ), sem identificação institucional clara nos registros públicos; e a Comunidade Terapêutica Tenda do Encontro (Juiz de Fora, MG).

Ao sair da primeira CT, Eduardo voltou a usar drogas em um estado ainda mais vulnerável, o que resultou em uma série de internações em diferentes instituições: “eu digo que o crack salvou a minha vida. O crack amenizou a minha dor. Doía tanto ter passado aqueles sete meses lá. Tudo que eu vivi, todas as surras que eu levei, todas as pessoas que eu vi apanhar… Tinha que ser uma droga muito potente para amenizar a dor”.

Nos anos seguintes, alternou períodos em situação de rua com novas internações, quase sempre incentivadas pela família. Para Kleidson, que conseguiu fugir após 16 dias internado, o efeito foi semelhante: “Quando eu saí, usei três vezes mais. Saí em uma fissura danada daqueles 16 dias e afundei o pé na jaca”.

Foi em 2016, em uma das únicas CTs onde podia receber livros, que a trajetória de Eduardo Real começou a mudar. Nos dias de visita, pedia à irmã que levasse textos de psicologia, filosofia e psiquiatria — prática que considera seu primeiro movimento antimanicomial.

A virada veio ao ler uma reportagem sobre o coletivo antimanicomial e antiproibicionista Desentorpecendo a Razão. Quando saiu da instituição, Eduardo se aproximou do grupo: “eu comecei a dialogar com a minha família de outra forma sobre o meu uso, as narrativas começaram a mudar. Eu comecei a colar com essa galera, e o crack não era tão importante mais. Foi uma flor desabrochando no meu peito”.

Tanto para Eduardo quanto para Kleidson, que frequentou um Centro de Referência em Saúde Mental (Cersam) de Belo Horizonte, a melhora veio a partir da redução de danos e do cuidado em liberdade. 

O primeiro tratamento de Eduardo fora das comunidades terapêuticas ocorreu em 2018, no Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da USP, onde ficou internado por 28 dias. Lá, ele recebia atendimento multiprofissional, tinha liberdade para sair quando quisesse e conseguiu passar dois anos sem o uso de substâncias.

As saídas das comunidades terapêuticas raramente são concedidas pelas instituições. Em geral, acontecem por fugas ou pelo encerramento de contratos. Bruna fugiu no mesmo carro em que socorreu Cecília; Jackeline deixou o Esdras após a morte de Milena e passou a buscar responsabilização pelo caso; Eduardo e Kleidson construíram trajetórias na militância em saúde mental.

Questionados sobre o objetivo das instituições onde estiveram, as respostas coincidem. Para Eduardo e Kleidson, o propósito é o lucro. Para Bruna, há também o poder exercido pelos responsáveis ao assumirem o papel de “salvadores”. Já para Jackeline, existe uma lógica de exclusão social que se aproxima da obra de Carolina Maria de Jesus, que descrevia um “quarto de despejo”: “é tirar aquele ser humano que deveria ser um problema ou não está dentro do que é considerado normal na sociedade, e deixar ele ali naquele depósito. E se ele padecer ali, é lucro”.

“Fui louca nas minhas escolhas ou, sem tantas escolhas, me fiz louca assim?”

Trecho de “Louco”, poema de Bruna Mendes.

Expansão das CTs continua apesar de alertas de especialistas

Fora das comunidades terapêuticas, ainda há dificuldades de acesso à rede pública. Bruna relata ainda não ter conseguido atendimento: “até hoje eu não sou acolhida pelo SUS. Estou na fila do neurologista e do psiquiatra há quatro anos”.

Para alguns especialistas, o fortalecimento das comunidades terapêuticas no Brasil pode ser explicado por um “vazio assistencial” histórico nas políticas de saúde mental. Outras análises destacam o avanço de agendas conservadoras que ampliam o espaço das instituições, sobretudo na bancada evangélica do Congresso Nacional.

Apesar de estarem vinculadas ao MDS, órgãos fiscalizadores como o MNPCT apontam que os modelos adotados por muitas CTs são incompatíveis com os códigos de ética de assistentes sociais e psicólogos. A Anvisa, por sua vez, também não as reconhece como serviços de caráter médico, o que contribui para que ocupem um limbo institucional entre saúde, assistência e acolhimento, enfraquecendo os mecanismos de fiscalização.

A segunda reportagem da série Vidas Confinadas dialoga com especialistas para investigar o histórico de crescimento das CTs no Brasil, apresentando os dados mais recentes sobre o seu financiamento público. Leia aqui.

Em casos de vulnerabilidade, o governo federal disponibiliza canais gratuitos de assistência. Use o Disque 100 para denúncias de violações de direitos humanos. Para apoio emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) possui atendimento sigiloso e disponível 24h pelo número 188.