Em nome do Pai: como as comunidades terapêuticas dominaram a política pública sobre drogas
Entre 2017 e 2020, instituições receberam mais de R$560 milhões em recursos federais, estaduais e municipais; especialistas declaram que o financiamento das CTs contraria o princípio da laicidade do Estado
Por Duda Reis
No Hospital Municipal de Ibiúna, havia pequenas poltronas alinhadas diante de três leitos. Em uma delas, Cecília, uma senhora de 50 e poucos anos, deitou no colo de Bruna e pediu uma música. Sem hesitar, a jovem cantarolou os primeiros versos de uma música do cantor estadunidense Johnny Rivers.
“Do you wanna dance and hold my hand?
Tell me that I’m your man
Baby, do you wanna dance?”
A melodia era familiar às internas da Comunidade Terapêutica Estrela de Luz, situada em uma área isolada da zona rural de Ibiúna, no interior de São Paulo. Naquela madrugada de de 2017, Cecília, que passou grande parte da vida institucionalizada em um vaivém de casas de acolhimento, acordou na chamada “senzala rosa” — ala onde ficavam as pacientes consideradas esquizofrênicas pela instituição — com sangue na garganta. Foi socorrida por Bruna Mendes, à época com 22 anos — são delas as memórias sobre o ocorrido com Cecília. Bruna não era enfermeira, apenas outra interna que, ao cumprir as regras rígidas do local, subiu na hierarquia até conquistar cargos de monitoramento.
As comunidades terapêuticas (CTs) são instituições privadas que podem receber recursos do poder público e acolhem pessoas com uso problemático de álcool e outras drogas. Nas CTs, a presença de profissionais qualificados costuma ser reduzida, e é comum que internos virem monitores — mesmo sem formação ou remuneração — como parte do tratamento.
Internada desde 2016, Bruna ajudava as mulheres da casa rosa com um cuidado que descreve como materno. Dava banhos, acompanhava a alimentação e vigiava durante a noite: “qualquer coisinha eu acordava, igual mãe. Quando eu acordei, Cecília estava vomitando sangue”.
A jovem enfrentou resistência dos funcionários da Estrela de Luz para levá-la ao hospital: “Quando uma enfermeira [da CT] chegou e olhou o estado da Cecília, tentou fugir. Eu não permiti que ela fugisse. Peguei outra interna e falei: ‘me ajuda a carregá-la até o carro’”. As duas colocaram Cecília no veículo, e a própria enfermeira acabou seguindo com elas. Em um carro velho — comprado por Bruna com economias próprias, com o aval da família, para transportar internas diante da ausência de assistência da instituição — partiram para o hospital.
O trajeto de quase 24 quilômetros levou cerca de 30 minutos. Ao chegarem na emergência, a enfermeira puxou a outra interna e deixou o local às pressas, retornando à Estrela de Luz. Bruna ficou. Ao perceber que os médicos não poderiam mais ajudar e que Cecília já estava em um estado terminal, cantou Johnny Rivers e segurou a mão daquela senhora por 20 minutos — o intervalo entre a entrada na emergência e o último suspiro. “Eu lembro de cada pedacinho daquele rosto. Ela era muito bonita, apesar de estar sem a dentadurinha, com a boquinha para dentro”, recorda Bruna, hoje aos 32 anos.
Ao ligar para a CT para comunicar a morte de Cecília, Bruna Mendes foi orientada a sair do hospital e fumar um cigarro. Antes disso, conduziu o corpo numa maca até o necrotério. Do lado de fora, foi surpreendida pelo carro da Estrela de Luz e obrigada a retornar à instituição.

em maio de 2026
A trajetória de Bruna até aquele hospital em Ibiúna começou no Paraná. Criada em Colombo, passou a usar substâncias ainda na adolescência, após a morte de uma companheira e em meio à rejeição da família católica à sua sexualidade. Já adulta, largou a faculdade de direito para viver de música e passou a trabalhar em uma agência de modelos, onde iniciou o uso de cocaína e heroína. Ao perceber que havia perdido o controle, pediu ajuda e foi internada em uma clínica particular de Curitiba, onde permaneceu apenas cinco dias devido ao custo do tratamento.
Após um período isolada em casa para continuar em abstinência, sofreu uma tentativa de estupro ao voltar de uma festa, o que agravou sua relação com o álcool. Buscando alternativas mais acessíveis, sua mãe descobriu a Comunidade Terapêutica Estrela de Luz por recomendação de conhecidos. Lá, a mensalidade era R$1 mil.
Mesmo sem conhecer o local, a família providenciou a remoção de Bruna. Em uma noite, três homens foram até sua casa e a sedaram com um coquetel de medicamentos conhecido como “danoninho”. Ela acordou já em Ibiúna, em uma cadeira de rodas: “fui colocada em uma cama. Não sei quem trocou a minha roupa, quem mexeu nas minhas coisas, quem fez a minha revista íntima”. Ao despertar, ouviu que a família não a queria mais e que permaneceria na instituição até nova decisão.
Bruna ficou três meses sem contato com os parentes e só voltou a ter notícias após aceitar assinar o contrato de internação. O período mínimo era de seis meses, mas ela permaneceu por 1 ano e 8 meses, parte do tempo já como monitora: “eu não sabia que eu já podia ir embora, porque eles não me passaram isso, mas para a minha família falaram que eu estava trabalhando lá. Nunca recebi, e a minha família continuou pagando”.
Durante o período em que atuou como monitora, Bruna também relata ter participado de uma agressão contra outra interna — episódio que hoje relembra com arrependimento.
A Comunidade Terapêutica Estrela de Luz mantém CNPJ ativo e tem como único sócio-administrador Eduardo Abbondanza Morad, que não foi localizado pela reportagem. Um e-mail vinculado à instituição foi contatado, mas não houve resposta até a publicação desta edição.
Projeto terapêutico das CTs não possui evidência científica comprovada
O isolamento geográfico e o distanciamento familiar são as primeiras ferramentas de controle de algumas CTs. Em 2011, Kleidson de Oliveira conheceu o mesmo sistema em Belo Horizonte, quando ainda vivia em situação de rua. Hoje com 48 anos e ativista do Movimento População de Rua, ele lembra como foi “recolhido” e levado para uma comunidade terapêutica identificada como “Fazenda Leão de Judá”, entre Coronel Fabriciano e Ipatinga, municípios de Minas Gerais.
Ao chegar no local, Kleidson foi obrigado a capinar, plantar, cuidar de animais, entre outros serviços associados à manutenção do espaço. O método é conhecido como laborterapia, uma série de atividades laborais impostas como parte do tratamento, porém sem respaldo clínico ou acompanhamento técnico qualificado.
Na pesquisa censitária mais recente a nível nacional, realizada em 2017, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) identificou a existência de quase 2 mil CTs no Brasil, com cerca de 84 mil vagas. Do total, 82% possuem vínculos com igrejas ou organizações religiosas, sendo 40% de orientação pentecostal e 27% católica. No levantamento, a prática de laborterapia foi identificada em mais de 90% das instituições.
Ao entrar naquela Kombi, Kleidson relata ter sentido a esperança em um “mundo novo”: “aquele abraço que eles me deram… Foi como se eu fosse viver em um mundo de pessoas que iam me respeitar, entender o meu problema, me aceitar do jeito que eu era. Nada. Eu fui para um isolamento. Parecia um campo de concentração”.
A trajetória das CTs no Brasil em marcos legislativos
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